Papo-cabeça Pra Pensar | ||
A casa fica ao lado de seu antigo restaurante, que fechou. Jardim, árvores. Rubem Alves nos recebe com alegria. Nasceu a 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas. A família se mudou para o Rio em 1945. Colegas zombavam de seu sotaque. Buscou refúgio na religião. Teve aulas de piano. Estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP) e iniciou carreira como pastor. Tem três filhos. É mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary, de Nova York. Com o golpe militar de 1964, perseguido como subversivo, abandona a Igreja Presbiteriana e volta aos Estados Unidos. Torna-se doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary. Considera a tese de doutoramento, Uma Teologia de Esperança Humana (1969, Corpus Books), “um dos primeiros brotos” da Teologia da Libertação. Volta para o Brasil e, em 1973, vai para a Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Fez-se psicanalista. É admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, José Saramago, Friedrich Nietzsche, T. S. Eliot, Albert Camus, Santo Agostinho, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa. Num de seus livros, Estórias de Quem Gosta de Ensinar, investe contra os vestibulares. Conversamos quase duas horas sobre educação. Tem idéias instigantes, ditas com humor: “A escola tradicional é um amontoado louco de absurdos”. Aos colegas educadores, lança: “Saber o programa é saber o saber cristalizado, mas a vida faz perguntas que você não imagina”. Entrevistadores - A Unesco divulgou um dado ruim para nós: cerca de 30% das crianças de 7 a 16 anos estão fora da escola. Rubem Alves - Vou dizer mais, a escola não tem o menor sentido para elas. Há três tendências na educação, talvez mundial. A primeira é da escola tradicional, é um amontoado louco de absurdos. Diretoras acham que são guardiãs do patrimônio do Estado. Conheço bibliotecas que são trancadas, para as crianças não “estragarem” os livros. Umas coisas malucas. Estou escrevendo a história do menininho cujo pai diz: “— Você precisa ir para a escola. O que você vai ser?”. “— Eu quero ser eu.” Ele, no primeiro dia, aprende coisas fantásticas. Depois descobre que há hora certa para pensar, é o que diz a campainha: “Agora você vai pensar português 45 minutos”; toca a campainha: “Agora pensa matemática”. É o modelo da linha de montagem. Você toma por assentado que todas as crianças são a mesma estrutura básica. Não respeita as peculiaridades, que as crianças são diferentes. Essa idéia de que todo mundo tem que aprender para fazer prova. Com isso, a gente está destruindo coisas fantásticas. Acabei de voltar de Fortaleza e tinha uma bandinha de flautas com crianças. Fiquei encantado com o maestro, serviço voluntário, não ganha um tostão. E ele tinha apenas 18 anos. As crianças adoram, e agora ele quer ensinar em outra cidade. Qual é o lugar de um sujeito desse na educação? Não existe. O segundo caminho é de educação através da Internet. Não existe mais conceito de hora de aula. Quem é que dá aula? Você pode ir à Internet às três da manhã. Tem a liberdade de procurar o que quer. Só tem um problema: educa para o mundo rico. O povo lá de beira-rio, ainda que tenha computador, não tem nada para eles. Uma terceira alternativa que vejo com alegria é que estão pipocando coisas. Parece que os professores estão cheios, e coisas interessantíssimas estão surgindo sem ter nada a ver com Internet, com governo. Em Tocantins, a 400 quilômetros de Palmas, crianças e professores começaram a desenvolver um programa com os velhos. Aqueles que trabalham na enxada, analfabetos. Os velhos contam histórias de antigamente, brinquedos antigos, e eles vão ensinar para os velhos o quê? Pelo computador, eles descobriram que não precisam pegar na caneta para escrever. Basta bater o dedo na tecla, a letra aparece. Estão alfabetizando os velhos através de computador. Noutra cidadezinha, fizeram um programa: troque uma leitura por um saco de mangas. Fizeram uma espécie de lojinha, com textos pendurados no barbante. A pessoa lê e depois tem que escrever um parágrafo sobre a história. Ganha um saco de manga. Outra, a biblioteca ambulante. Pegam um carrinho de pedreiro, enchem de livros, vão para as ruas da periferia, fazem uma barulheira, distribuem livros, que coisa linda! E - A gente, em geral, acha que conhecimento não precisa necessariamente ter função. Não é interessante, sim, ter essa motivação, para que o conhecimento se cristalize? RA - Recebi e-mail de uma professora pedindo dicas de como motivar as crianças a aprender. Disse a ela: “Tem um erro na sua pergunta. Pergunte: ‘O que a gente tem que fazer para motivar uma criança a tomar sorvete?’ Nada. O sorvete já é motivação suficiente. ‘O que tem que fazer para motivar uma criança a comer jiló?’. Muita coisa.” Quando você vem com a idéia da motivação exterior é porque alguma coisa está errada com o objeto. A criança não quer aprender aquilo. Isso é da vida. Tudo aquilo que significa desafio vital, a gente quer aprender. Um exemplo bem besta: se você estiver com uma pedra no sapato, sua vida mental se centraliza naquele ponto e você quer tirar o sapato. A mesma coisa com o conhecimento; se você tem uma necessidade, você logo começa: “O que eu vou fazer?” Se eu fosse fazer um currículo, um ambiente a ser explorado seria uma casa. Veja, nessa sala, o que tem de física aqui? Os materiais. Logo de saída você tem papel, madeira, plástico, couro, vidro, pedra. Se você começar a trabalhar isso, tem um mundo de coisas que aprende. Física mecânica: uma criança de seis anos, se você colocar um prego, uma cabeça de martelo em cima e perguntar se vai pregar o prego, ela vai dizer que tem de bater. Enunciou uma lei da física: força igual à massa vezes aceleração. As coisas são óbvias. As crianças vão aprender a fazer coisas. Geometria, está tudo aqui: fio de prumo, nível; no madeiramento, você descobre a lei de composição de forças. Biologia, a vida, galinhas e passarinhos. E - Você ia contar algo com que sonha há algum tempo. RA - Meu sonho era ter um currículo voltado para a casa. Uma coisa que não seja decorar nome. Qual é o sentido para um adolescente de periferia aprender o nome das enzimas que ajudam na digestão? O que ele faz com esses nomes? Só tem uma resposta: serve para responder na prova. A coisa que tem sentido é aquilo sobre o que a gente fala. Se não falar sobre aquilo, não é conhecimento. Também quero saber o cotidiano. A cozinha é lugar maravilhoso para se aprender química. Proponho que os vestibulares sejam substituídos por um sorteio. A idéia surgiu na Unicamp. A gente queria aluno que pensasse, e não que soubesse respostas. Porque não existe nada mais contrário à inteligência do que saber as respostas. A inteligência se testa pela capacidade de fazer perguntas. Um amigo engenheiro, virou e disse: “O melhor seria um sorteio”. Caí na risada. Comecei a pensar e escrevi. O problema do vestibular é o que ele faz com a escola. Porque o vestibular é que realmente determina os padrões de conhecimento. Tem que ser uma escola que resolva as questões dos vestibulares. Se você acabasse com o vestibular e fosse sorteio, as escolas saberiam que poderiam ensinar qualquer coisa que não está no programa, porque não vai ter exame. Pode ensinar a vida. Pode ensinar literatura sem ter que fazer teste de compreensão, que é absurdo. Todo mundo reclama que os adolescentes não gostam de ler. Eles têm razão, porque a escola ensina a odiar a leitura, fazendo aqueles malditos testes de interpretação. Começa: o que o autor queria dizer? Então, pegamos a Cecília Meireles: “No fundo dessa fria luz marinha, nadam aos meus olhos dois baços peixes à procura de mim”. Quando faço essa pergunta, estou afirmando que ela queria dizer, mas não disse. Já estou acusando o escritor de indigência lingüística. Pobre Cecília, ela queria dizer, mas gaguejou, saiu esse poema, mas agora, graças à gramática, vou fazer a Cecília dizer o que queria mas não conseguiu. Mas, escuta, nenhum escritor quer dizer nada. O escritor diz. Se quisesse dizer outra coisa, diria outra coisa. Isso é tão óbvio. Não precisa Piaget. Aliás, acho que essa quantidade de teoria bagunça a cabeça dos professores. Um resultado trágico é que quem passa pela universidade perde a capacidade de pensar. Na Unicamp, me nomearam presidente de uma comissão para selecionar candidatos ao doutoramento. Esses infelizes recebem uma lista de livros, passam um tempão se preparando. Combinei com meus companheiros propor a todos uma só questão: “Fale-me sobre aquilo que você gostaria de falar”. Uma moça entrou em surto psicótico. Deve ter achado que era gozação. Começou a recitar livros marxistas e interrompi: “Já li os livros, não quero que você me repita. Não sei o que está na sua cabeça, quero que você me diga”. Ela não conseguiu. E - Hoje temos um índice enorme de desistência nas escolas. RA - Porque não faz sentido. Precisamos reconhecer que existe uma diferença entre o pessoal de classe média e alta e o pessoal de periferia. O pessoal que está nesses colégios que apertam tem uma coisa na frente, que é tola, mas eles têm: passar no vestibular. Quando o pessoal fica nos semáforos porque passou no vestibular, abaixo o vidro do carro e olho sério: “Sou professor emérito da Unicamp. Não vou dar dinheiro, mas vou dar um dinheiro que pode salvar sua vida. Salve-se enquanto é tempo!” Que garantia um diploma me dá hoje? Essa proliferação de faculdades e universidades pode dar a impressão de que o Brasil, repentinamente, ficou inteligente. Os pais ficam na ilusão de que diploma dá segurança ao filho. As pessoas não percebem que tem diplomado demais, e não tem emprego. Por isso, ao lado dessas disciplinas nas universidades, as pessoas deveriam aprender um ofício. Meu filho é médico e marceneiro. Primeiro, que é bom. Pedreiro, jardineiro, cozinheiro. Vá aprender um ofício, porque não tem garantia. O pessoal que pode pagar as contas não desiste, porque tem essa esperança de ascensão. Nas classes periféricas, por que fazem o curso? Não estudam para ter saberes que não interessam, mas precisam daquele título para conseguir um emprego melhor. E - O que você acha das cotas nas universidades? RA - Uma besteira monumental. Os pretos vão começar a ser odiados. Imagine, você chegou ali, não entrou porque era a hora da cota. Minha solução é melhor: não vai ter cota para ninguém, mas todos, igualmente, rico, pobre, preto, branco, gay, lésbica, o diabo a quatro, todo mundo entra no sorteio. Gosto muito do Cristovam Buarque, é um cara aberto, mas de duas idéias dele não gosto. Uma é simplificar o vestibular, tendo só Matemática e Português. É aprimoramento dos métodos de tortura. Em vez de você passar por várias máquinas de tortura, vai passar por duas. Você imaginou o prazer dos gramáticos em multiplicar as doideiras para atormentar os estudantes? Traria ódio ao Português, à Matemática, e desprezo pelas ciências que não entram. Outra que não concordo é usar as notas médias do segundo grau para entrar na universidade. Tem um problema: quero ganhar dinheiro, vou fazer uma escola e prometo dar nota 10 e 9 para todo mundo. O Ministério vai ter que fazer credenciamento das escolas dignas. Há mais de 30 anos, um intelectual brilhantíssimo, católico, Ivan Illitch, escreveu A Sociedade Sem Escolas. A proposta dele é que tem que haver lugares para aprendizagem. Vamos dizer, um supermercado de saberes. Você vai organizar o seu currículo. Por sua conta. Não precisa presença. A idéia do Ivan: não interessa como aprendi. “Aprendi tudo no sonho, sonhei e aprendi. O que você tem com isso?” Há de haver um teste. Uma validação do conhecimento. Claro. Mas não durante o curso. Quer ser advogado? Não me interessa se estudou numa escola. Vai fazer o exame da Ordem dos Advogados. Médico? Há uma coisa que não está nos livros, a prática. Nesse caso, você tem que enfrentar as aulas de prática médica. E - É possível essa escola? RA - Vou dar outro exemplo. Na nossa escola, se você viveu nos Estados Unidos, fala inglês melhor que o professor, mesmo assim tem que estudar “John is a boy, Mary is a girl”; se não estudar isso, não freqüentou a aula. A burocracia é a heresia moderna. O Evangelho diz: “No princípio era o verbo”. A burocracia diz: “No princípio é o relatório”. Se você não está lá nos 75% de presença, você não sabe. A realidade não existe, o que existe é o relatório. Acho que uma escola dessa, com esse jeito de aprender, é viável e funcionaria. Mas não acredito que vá acontecer, porque há a força inercial das burocracias. E - Ziraldo costuma dizer que ler é mais importante que estudar. RA - De vez em quando, uma pessoa me manda pergunta do tipo: o que fazer para desenvolver o hábito da leitura? Deus me livre, não quero hábito da leitura. Hábito é para escovar dente, cortar a unha do pé, tomar banho. Já imaginou um curso para ensinar os maridos a terem o hábito de dar beijinhos na esposa? O cara que dá beijinho por hábito é um robô. A leitura é por puro prazer. Essa é uma razão por que, em relação à leitura, não pode haver exame. Porque se você souber que tem que fazer exame, já não tem o prazer. Vai ler um texto e fica pensando: o que será que o professor vai perguntar? Literatura é vagabundagem. Insisto, puro ócio. Perco tempo lendo García Márquez, mas por que leio? Porque é absolutamente delicioso. Para simplificar minha teoria, digo que a educação se divide em duas partes. Para explicar as duas partes, digo que o corpo é o sujeito da educação. Não é a cabeça, pois ela é ferramenta do corpo. O corpo sofre e pergunta à cabeça o que fazer para parar de sofrer. O corpo carrega duas caixas. Uma, de ferramentas, precisa saber martelar, pregar botão, fazer arroz, ler, escrever, falar, somar, multiplicar, ferramentas que aprendo na medida em que há desafios. Não adianta tentar me ensinar a usar solda elétrica, não vou nunca mexer. O que as escolas fazem? Ensinam todas as ferramentas. Têm que ensinar uma ferramenta em relação a determinado problema que você tem. Você vai aprendendo a usar na medida em que a vida vai se desenvolvendo. A outra caixa é a dos brinquedos. Por que, sendo inútil, a gente mexe com ela? Porque é delicioso. Aí está: escutar música, tocar flauta, ler poesia, empinar pipa, fazer amor, dar beijo, comer. Tem o prazer e a alegria. A primeira caixa dá meios de vida, a segunda caixa me dá razões para viver. Essa segunda caixa é a que a escola não ensina. Porque logo faz a besteira de tentar transformar esses saberes, esses sabores, em provas. Você tem que avaliar quanto aprendeu sobre Van Gogh e Mozart. Não é possível fazer isso. E - Em suas palestras, você sente que esclarece ou confunde os educadores? RA - As duas coisas são necessárias. Há um sentido em que você tem que produzir caos. Nietzsche dizia: “É preciso ter caos dentro de si para dar luz a uma estrela”. Você tem que bagunçar. Coisas que os professores nunca pensaram: por que tem que aprender dígrafo? Qual é a utilidade de análise sintática? Você vai fazendo as perguntas, e eles se dão conta do bestiário. Uma coisa excelente para descobrir é que, como professor, você não precisa saber o programa. Você saber o programa é saber o saber cristalizado, mas a vida faz perguntas que você não imagina: por que água fervendo endurece o ovo e amolece a cenoura? Isso é pergunta de uma criança. Não está no programa. Vamos pensar. Daí o professor descobre que pode ser companheiro da criança na diversão de aprender as coisas. Claro que uma porção de gente fica horrorizada quando falo essas coisas de vestibular. Falo mal dessa proliferação de faculdades, uma enganação. Aqui em Campinas tem não sei quantas universidades, que droga, e não lidamos com problemas básicos da cidade. A melhor coisa para a gente mudar a cabeça das pessoas não é falando teoria. Precisa fazer. Se você conta a história bem-sucedida, os professores pensam: “Isso é possível. Se é possível lá, é possível aqui”. Entrevistadores: Elifas Andreato, João Rocha, Laura Huzak Andreato, Mariana Proença e Mylton Severiano (por escrito). Fotos: Manoel Marques Enciclopedinha do Papo: Adélia Prado, 1935-: grande poetisa mineira; autora, entre outros, de Bagagem (1976) e O Coração Disparado (1978). Albert Camus, 1913-1960: jornalista, ensaísta, romancista e dramaturgo: nasceu na Argélia e é autor, entre outros, de O Estrangeiro (1942). Cristovam Buarque, 1944-: pernambucano, engenheiro mecânico e economista, ex-reitor da Universidade de Brasília – UnB, e ex-ministro da Educação. Fernando Pessoa, 1888-1935: escritor e poeta português, inaugurou a escola modernista em seu país. Friedrich Nietzsche, 1844-1900: filósofo alemão, crítico do cristianismo e defensor do homem como criador de seus próprios valores. Autor de Assim Falou Zaratustra e O Anticristo. Guimarães Rosa, 1908-1967: grande escritor mineiro; autor, entre outros, do romance Grande Sertão: Veredas (1956). Ivan Illich, 1926-2002: filósofo italiano que morou no México e incentivou a universidade aberta, especialmente voltada para os problemas da educação e independência cultural da América Latina. Jean Piaget, 1896-1980: educador suíço, pioneiro no estudo da inteligência na criança. Jorge Luis Borges, 1899-1986: escritor argentino. Autor de História Natural da Infâmia (1935), entre outros, deixou seguidores como Gabriel García Márquez. José Saramago, 1922-: um dos escritores portugueses mais lidos e traduzidos. É autor, entre outros, de Ensaio sobre a Cegueira (1995). Manoel de Barros, 1916-: advogado, fazendeiro e poeta mato-grossense. Seu primeiro livro foi Poemas Concebidos sem Pecado (1937). Mozart, 1756-1791: músico austríaco, grande compositor de sinfonias; concertista, deixou quase 800 obras. Octávio Paz, 1914-1998: poeta mexicano, um dos maiores da América Latina, publicou mais de vinte livros, entre eles, Luna Silvestre (1933). Santo Agostinho, 354-430: escritor africano, autor de grandes obras como A Cidade de Deus (413-427) e As Confissões (397). T. S. Eliot, 1888-1965: poeta, crítico, ensaísta e dramaturgo naturalizado inglês; ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1948. Van Gogh, 1853-1890: pintor holandês, pós-impressionista, inovou no uso de cores vivas. Almanaque Brasil de Cultura Popular. Edição 56 - Novembro/03. Papo-cabeça Pra Pensar |
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Rubem Alves
Henri Wallon
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Ariano Suassuna
O decifrador de brasilidades, como já foi chamado, é um dos principais preservadores da cultura brasileira. À sua obra, ele integra os valores mais arraigados de sua região. Nela encontramos, a um só tempo, elementos do Simbolismo, do Barroco e da literatura de cordel. Ficcionista, poeta, dramaturgo e pensador da cultura, Ariano Suassuna, transforma o Sertão num grande palco das questões humanas típicas de qualquer lugar do mundo. Criador do Movimento Armorial, que tem como projeto a confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro, trabalha a favor da dignidade humana. O seu Romance d’A Pedra do Reino é considerado um dos melhores da literatura brasileira, e a peça O Auto da Compadecida, diversas vezes encenada por todo o mundo, já teve três adaptações cinematográficas. Aos 16 de junho de 1927, nasceu, em Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa – PB, Ariano Villar Suassuna, filho de Rita de Cássia Villar Suassuna e João Suassuna. Após o seu nascimento, seu pai deixa o governo da Paraíba e leva a família para o Sertão da Paraíba, indo morar na fazenda Acauhan. Na Revolução de 30, seu pai foi assassinado no Rio de Janeiro, fato que obrigou a família a transferir-se para Taperoá, onde residiu de 1933 a 1937. Em Taperoá, Ariano assistiu, pela primeira vez, a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, que mais tarde influenciaria suas obras e peças teatrais, tornando-se a improvisação uma de suas marcas registradas. Em 1942, passou a residir no Recife e, em 1945, concluiu os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz. Em 1946, ingressou na Faculdade de Direito, fez amizade com Hermílio Borba Filho, e, juntos, fundaram o Teatro do Estudante de Pernambuco. É datada de 1947, sua primeira peça, Uma mulher vestida de sol, e de 1948, Cantam as harpas de Sião (ou O desertor de Princesa), que foi representada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. No ano seguinte, foi a vez da montagem, pelo mesmo Teatro, de Os homens de barro. Formou-se na Faculdade de Direito em 1950 e, naquele mesmo ano, recebeu oPrêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Retorna a Taperoá para curar-se de doença pulmonar. Em Taperoá, no ano de 1951, escreveu e montou a peça Torturas de um coração. De volta ao Recife, em 1952, passa a dedicar-se ao exercício da advocacia até os anos de 1956; em paralelo, continua com a atividade teatral. Durante esses anos, produziu O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955). Essa peça o projetou em todo o País e foi considerada como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro” por Sábato Magaldi. Em 1956, assume, como professor, a cadeira de Estética na Universidade Federal de Pernambuco e abandona a advocacia. Em 1957, suas peças O casamento suspeitoso e O santo e a porca, são encenadas pela Cia. Sérgio Cardoso, em São Paulo. Nos dois anos seguintes,1958 e 1959, são encenadas as peças O homem da vaca e O poder da fortuna, respectivamente. A peça A pena e a lei, encenada também em 1959, seria premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro. Com seu bom amigo Hermílio Borba Filho, fundou, em 1959, o Teatro Popular do Nordeste, onde encenou as peças a Farsa da boa preguiça (1960) e A caseira e a Catirina (1962). Em 1960, faz uma pausa na sua carreira de dramaturgo e dedica-se, exclusivamente, ao seu trabalho de professor da cadeira de Estética na UFPE. Em 1967, torna-se membro fundador do Conselho Federal de Cultura. Em 1969, foi nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE. Como sempre esteve ligado à cultura, iniciou em 1970, no Recife, o Movimento Armorial, que tem como projeto a confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro, trabalhando a favor da dignidade humana. Conclamou nomes expressivos da música para criarem uma música erudita nordestina e para juntarem-se ao Movimento Armorial, lançado, no Recife, em 18 de outubro de 1970, com o concerto Três Séculos de Música Nordestina — do Barroco ao Armorial e com uma exposição de gravura, pintura e escultura. Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção e publicou os romances: Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971), e História d´O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana(1976), classificados, pelo próprio Ariano, de “romance armorial-popular brasileiro”. Em 1976, defende, pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, a tese de livre-docência A Onça castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira. Em 1994, aposenta-se como professor. De 1994 a 1998, assumiu o cargo de Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, no Governo Miguel Arraes. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 3 de agosto de 1989, foi ali recebido em 9 de agosto de 1990. É membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2000). Assim é Ariano Suassuna, um autor que traz nas suas obras a força do arcaico como traço da sua contínua presentificação e eternização. Obras consultadas Almanaque Abril. Quem é quem na História do Brasil. São Paulo: Abril Multimídia, 2000. p. 462. Caderno de Literatura Brasileira. Instituto Moreira Salles. São Paulo, 2000. |
Anísio Teixeira
Anísio Teixeira | |
Aos 12 de julho de 1900, nascia, em Caetité (BA), Anísio Spínola Teixeira, filho de uma família de fazendeiros. Em Caetité e em Salvador, estudou em colégios jesuítas. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, no Rio de Janeiro, em 1922. Anísio Teixeira, além de educador teórico, foi um bom administrador; entre os anos de 1924 a 1929, ocupou o cargo de inspetor-geral do ensino da Secretaria do Interior, da Justiça e Instrução Pública no Estado da Bahia. Em 1928, estudou na Universidade de Columbia, em Nova York, onde conheceu o pedagogo John Dewey. Influenciado pelas visões de John Dewey, Anísio Teixeira vê a necessidade de uma teoria educacional indissociável de um saber prático. Dewey concebia a educação como um processo que recria ou reconstrói o educando por meio da experimentação e propunha a educação em e para o educando. Comungando com as idéias desse pedagogo americano, Anísio Teixeira torna-se um dos precursores da visão de John Dewey no campo educacional brasileiro. Segundo ele, o ambiente social é fundamental na Escola. Para ele, a família já não educava como no passado, e cabia à instituição “Escola” ter tal posição, diagnosticando e aplicando os meios curativos necessários. Na sua vida de administrador, abraçou o cargo de diretor–geral de instrução pública na cidade do Rio de Janeiro (1931). Em sua gestão, criou uma rede municipal de ensino completa, que ia da escola primária à universidade. Em 1935, concebeu e gerou a Universidade do Distrito Federal (UDF), que reunia os educadores mais brilhantes do Brasil, tais como: Afrânio Peixoto, Gilberto Freyre, Hermes Lima, Roquette Pinto. Ao lado da Universidade de São Paulo (USP), inaugurada no ano seguinte, a UDF mudou o ensino superior brasileiro, porém, teve a sua trajetória interrompida, quando foi extinta em 1939, durante o Estado Novo. No período do governo de Getúlio Vargas, Anísio foi afastado da vida pública. Suas atividades permaneceram no campo da tradução de livros e correspondência com amigos e educadores, viveu assim até o final do período do Estado Novo, em 1945. Em 1946, ele assumiu, na Unesco, o cargo de conselheiro da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. Reaparece, em 1947, no cenário educacional brasileiro, quando convidado pelo governador da Bahia, Otávio Mangabeira, a assumir a Secretaria de Educação e Saúde em Salvador (1945-1950), agora com mais liberdade para os seus projetos pedagógicos. Foi, também, secretário de Educação e Saúde da Bahia (1947-1950) e, durante a sua gestão, organizou os conselhos municipais de educação e fundou o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, conhecido como Escola-parque. Essa escola procurava oferecer à criança uma educação ativa e integral, que ia da alimentação até a preparação para o trabalho e a cidadania (bem próximo do contexto de Dewey). O modelo da Escola-parque passou a ser considerado parâmetro internacional e divulgado pela Unesco em outros países. Entre os anos de 1951 e 1964, assumiu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – Inep, e de secretário-geral da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. No ano de 1955, investiu na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais – CBPE, e na criação da Universidade de Brasília – UnB, fundada em 1961. Coube a Darcy Ribeiro a condução do projeto da universidade, oferecido pelo próprio Anísio Teixeira, que o considerava seu amigo e sucessor. Em 1962, tornou-se membro do Conselho Federal de Educação e, em 1964, Reitor da UnB. A sua meta era a reconstrução de uma escola pública e gratuita nos diversos níveis. Com o golpe de 1964, foi afastado do cargo, o que o fez partir para os Estados Unidos, onde lecionou nas universidades de Columbia e da Califórnia. Em 1965, voltou ao Brasil e, em 1966, tornou-se consultor da Fundação Getúlio Vargas – FGV. Na cidade do Rio de Janeiro, aos 11 de março de 1971, foi encontrado, no poço do elevador de um edifício no começo da Avenida Rui Barbosa, o corpo do educador Anísio Teixeira. A sua família suspeita de que ele possa ter sido vítima da repressão do governo do general Emílio Garrastazu Médici, mas, para a polícia, foi uma morte acidental. O que fica para nós é o exemplo de um educador íntegro e preocupado com a educação do seu país. Anísio Teixeira entendia que a educação não era apenas um fenômeno escolar, mas um fenômeno social que se processava permanentemente em toda a sociedade. Nas suas palavras: a Escola era “a instituição conscientemente planejada para educar”. |
CÉLESTIN FREINET
CÉLESTIN FREINET | |
Em 15 de outubro de 1896, nasce Célestin Freinet, em Gars, região de Provença, no sul da França. Na adolescência, muda-se para Nice, onde inicia o Curso de Magistério. Com o advento da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), Freinet interrompe seus estudos e alista-se no exército. Os gases tóxicos utilizados na guerra prejudicam seus pulmões e, por isso, ele tem baixa do exército. Mesmo sofrendo desse mal, Freinet dá início às suas atividades como professor-adjunto, mesmo sem ter ainda concluído o Curso Normal. Em sua prática pedagógica, estabelece um sensível contato com os alunos, o que lhe permite desenvolver atividades voltadas para o interesse real das crianças. No período entre 1921 e 1924, trabalha, paralelamente às suas atividades de magistério, com aldeões, e funda uma Cooperativa de Trabalho. Dá início também às primeiras correspondências entre as escolas através das quais estabelece uma troca de experiências entre elas. Entre os anos de 1926 e 1928, casa-se com a artista plástica Elise, edita o livroA Imprensa na Escola, cria a revista La Gerbe (O Ramalhete), com poemas infantis, e funda a Cooperativa de Ensino Leigo; depois segue com Elise para trabalhar em Saint Paul. O período que vai de 1933 a 1939 marca um novo momento na vida de Freinet. Devido às intensas correspondências decorrentes das atividades realizadas na Escola e na Cooperativa, surgem desconfianças que provocam a exoneração de Freinet do cargo de professor em Saint Paul de Vence. Mesmo assim, ele continua trabalhando na Cooperativa. Finalmente, Freinet abre a sua escola: aEscola de Freinet; e, juntamente com Romain Rolland, cria o movimento Frente da Infância. Inicia-se então a Segunda Guerra Mundial. Freinet é mantido preso no campo de concentração de Var, onde dá aula para os seus companheiros. Após ser solto, Freinet se integra ao Movimento da Resistência Francesa. Entre os anos de 1947 e 1956, Freinet cria o Icem, uma cooperativa educacional com mais de vinte mil participantes, e lança uma campanha nacional propondo uma reforma no número de alunos por classe — para ele, o número não deveria ultrapassar o de 25 alunos. Freinet faleceu em 1966, na cidade de Vence, na França. A Pedagogia Freinet é centrada na criança e baseada sobre alguns princípios. Freinet lança uma proposta pedagógica com o objetivo de modernizar a Escola, através de valores alicerçados no bom senso. A escola que Freinet quer modernizar é a Escola Pública, que ele considera como a escola do povo e, portanto, deve atender, na sua essência, às necessidades do povo. Sua proposta pedagógica revoluciona o processo de ensino–aprendizagem, humanizando-o através de uma relação professor–aluno baseada na verdade. Para isso, ele põe em evidência meios que revolucionaram tanto a educação, de um modo geral, quanto a escola, em particular, estabelecendo uma verdadeira relação professor–aluno lastreada no bom senso. Freinet, nessa proposta, reage contra o ensino tradicional. A sala de aula, segundo Freinet, deverá ser um local onde professor e alunos, conjuntamente, em clima de harmonia e disciplina, discutam tanto os conhecimentos básicos da aprendizagem como os problemas da vida cotidiana. Segundo a Profa. Djanira Brasilino de Souza (Natal/RN): “.... a educação que Freinet propõe é uma educação que respeita o indivíduo e a diversidade e reencontra a identidade própria do ser humano através da individualidade de cada um; que respeita as crianças tais quais elas são, sem submetê-las a modelos pré-estabelecidos, e que as ajuda na formação de sua personalidade. É uma pedagogia real e concreta, que procura oferecer às crianças e aos adolescentes uma educação condizente com as suas necessidades e mediante as práticas cotidianas.” A Pedagogia de Freinet objetiva elevar o homem à mais alta dignidade do seu ser e, através do exercício da cidadania, promover a realização da sua personalidade. Porém, não é uma ação educativa sem rumos concretos, utópica. A pedagogia freinetiana baseia-se em princípios. São eles: o princípio da cooperação, da comunicação e da expressão livre; o da educação do trabalho e o do tateamento experimental. Esses princípios estão centrados na criança e se explicitam através da prática educativa nos seguintes pontos: * Senso de responsabilidade. * Senso cooperativo. * Sociabilidade. * Julgamento pessoal. * Autonomia. * Expressão. * Criatividade. * Comunicação. * Reflexão individual e coletiva. * Afetividade. As técnicas de ensino propostas na pedagogia freinetiana são as seguintes: * Imprensa escolar. * Aula-passeio. * Texto livre. * Correção. * Livro da vida. * Fichário de consulta. * Plano de Trabalho. * Correspondência interescolar. * Auto-avaliação. Para saber mais sobre a Pedagogia de Freinet, consulte o site da Associação Brasileira para Divulgação, Estudos e Pesquisas de Pedagogia Freinet – ABDEPPF. Fonte: http://www.abdeppfreinet.com.br/ |
Se a boa escola é a que reprova, o bom hospital é o que mata
Hamilton Werneck |
A cultura da reprovação era o alicerce para a liberação da mão-de-obra barata endereçada ao corte da cana, às minerações e ao trabalho braçal em geral. Portanto, a educação era para muito poucos, sobretudo porque não se tinha a necessidade, dentro da visão do colonizador, de se distribuir renda. Passamos da Colônia ao Império e daí à República, permanecendo, porém, a mesma mentalidade entre nossos governantes e entre as forças produtivas do País. Para justificar tal situação, o comando do processo centrava-se nos currículos oficiais, sempre beneficiando uma determinada classe social, uma vez que os menos favorecidos não são contemplados em função de suas culturas de origem. Poucos, portanto, conseguiam atravessar um ensino voltado para um ambiente cultural que estava relacionado a uma minoria. Tendo assimilado isso, o corpo docente das escolas, formado nas universidades de mesma mentalidade, ainda hoje reporta os mesmos estigmas à educação — que, se não enfrentar uma mudança curricular séria, terá sempre os mesmos problemas —, alegando, em nome da boa qualidade (leia-se currículo oficial), que não poderá mandar adiante os alunos que nada sabem. Alguns buscam a justificativa estatística voltando-se para a curva de Gauss e, com essa análise, concluem ser natural e “normal” que sempre existam alguns reprovados, sendo que os poucos excessivamente bons não são contemplados com especiais cuidados da escola. Assim, busca-se o processo que leva à mediocridade, existindo até, em nossos dias, exames vestibulares que usam fórmulas estatísticas que beneficiam os resultados médios, como que descartando os pontos fortes dos alunos. Se submetêssemos os resultados aos crivos de ênfase nos pontos fortes, não poderia subsistir tal processo. O método estatístico de classificação prioriza a mediocridade na sua busca tecnicista de valores médios em detrimento de genialidades em aspectos específicos. Usando esse sistema com o apoio estatístico, o professor, por vezes, não percebe que, se os tempos fossem diferentes, os resultados poderiam contrariar a curva em que ele se apóia. É por isso que professores e famílias e até sistemas de educação acreditam mais nas escolas que reprovam do que nas escolas que conseguem fazer com que seus alunos aprendam, dado que é “natural” para eles haver reprovação, e o antinatural é ter os alunos aprovados. Quando todos são aprovados, a estrutura social não aceita o resultado como confiável. Daí o resultado de os exames escolares serem verdadeiros concursos, e não a aferição do rendimento, sobretudo dentro de uma característica diagnóstica que provoque mudanças futuras. Cria-se, então, a idéia de uma escola verdadeiramente pesada, de conteúdos carregados, difíceis de serem suportados pelos alunos e, o pior de tudo, marcada de conteúdos desnecessários, desatualizados. Assim, diminui-se o papel importante do professor como criador de situações de alta significação para os estudantes, transformando-o em mero“piloto” de livro didático, o que acarreta, ao mestre, uma grande frustração, já que a sua missão é altamente criativa. Centra-se, então, o trabalho escolar em currículos que saturam e tiram a felicidade dos alunos, criando, no momento das avaliações, um clima desagradável e de oposição entre educador e educando. Isso é sentido pelos mestres responsáveis quando chega a semana de provas, se as avaliações não ocorreram durante o processo. Mas existem, por incrível que pareça, os que gostam de tudo isso, como se familiares escolhessem um hospital com todas as características constrangedoras para lá colocar seu ente querido, imaginando, assim, salvar-lhe a vida. Como se o bom hospital fosse aquele que eliminasse a vida, porque certas escolas eliminam a vontade de estudar, matam os gênios, promovem os medíocres ou, o que é muito pior, quando instadas a mudar, “mandam” para a série seguinte os que sabem e os que não sabem, exatamente para provar que o sistema seletivo e excludente é a solução. Mesmo com a Independência, com o Império e todas as repúblicas, nós permanecemos com mentalidade colonizadora em relação à avaliação do rendimento escolar. As mudanças solicitadas ao sistema passam pelos conceitos de eficiência eeficácia. Hoje, muitas escolas são eficientes, porém pouco eficazes, exatamente porque não fazem o que deve ser feito. Assim, os alunos se desinteressam e não gostam das escolas, perdendo-se pelo meio do caminho, atrapalhando o desenvolvimento do País através da permanência da má distribuição de renda. Se a escola percebesse que as reprovações comprometem o seu nome e seu capital intangível — porque a boa escola deveria ser a que ensinasse e o aluno aprendesse, tanto quanto um bom hospital deveria ser aquele que permitisse a maior cura de seus pacientes —, a situação seria outra, porque estariam mudados os conceitos de qualidade em educação. A qualidade deve ser avaliada pela convivência, pela partilha, pela inclusão, pela solidariedade e pela relação de confiança entre educador e educando. O que faz perder a força desses itens certamente não será uma boa educação, porque seu perfil será gerador de excessiva competição no lugar da cooperação, produzirá mais excluídos, e não partícipes dos bens que o País é capaz de produzir. O que se propõe para transformar as escolas é que sejam lugares em que exista a esperança. “Nenhuma equipe produz dentro da tristeza. A tristeza é sinal da falta de esperança. A cara feia, a carranca, a mesma coisa. Somos alegres e felizes porque temos esperança, e, por sua vez, a esperança é fruto de uma crença, de uma fé forte e segura de que estamos criados e em processo de criação, construindo este mundo para melhor; portanto, nossas mãos se estendem em sinal de solidariedade e ajudam o crescimento dos demais.” Numa visão de Einstein, nós fazemos parte do universo, e, se crescemos, o universo cresce conosco. Não estamos sozinhos, existem bilhões de seres humanos e viventes pulsando conosco. “Nossa esperança leva a crer que, na medida de nosso crescimento, há um crescimento proporcional de toda a criação pela solidariedade de todos os entes criados, todos obras do Criador.” Referências Bibliográficas WERNECK, Hamilton. Se a Boa Escola é a Que Reprova, o Bom Hospital é o Que Mata. 8. ed. Rio de Janeiro: DPA, 2000. Sobre avaliação, do mesmo autor: Prova, Provão, Camisa de Força da Educação, da editora Vozes; e A Nota Prende, a Sabedoria Liberta, da DPA. Prof. Hamilton Werneck www.hamiltonwerneck.com.br |
FONTE DE PESQUISA: http://www.construirnoticias.com.br/
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
CINEMA; FILMES PARA SE ANALISAR E MUITO BOM PARA ESTUDAR.
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O cérebro se transforma quando aprendemos
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| O cérebro se transforma quando aprendemos | ||||||
| Tanto a substância cinzenta quanto a branca aumentam quando adquirimos conhecimento, e isso vale para jovens e idosos | ||||||
As células neurais funcionam como unidades processadoras de informações. Seus corpos formam a substância cinzenta, o córtex, que compõe a camada externa do cérebro. Cada neurônio pode receber sinais de outras células, transmitidos pelos pontos de contato, as sinapses, e depois encaminhados ao longo de extensões chamadas axônios. Eles ficam dentro do cérebro, ou seja, embaixo do córtex, e são chamados substância branca. Sua função é ligar os neurônios por longas distâncias, permitindo a comunicação entre diversas áreas. A cor clara vem da camada de gordura isolante que envolve os axônios. Essa bainha de mielina acelera o encaminhamento dos sinais, contribuindo para uma comunicação rápida sem perdas de dados. O truque decisivo: a bainha mielínica é interrompida a pequena distância pelos nódulos de Ranvier; os sinais praticamente “saltam” de um nódulo para outro. Sem essas interrupções, os sinais se difundiriam mais lentamente e, em trechos mais longos, acabariam por se extinguir. O grau de mielinização, portanto, influencia a velocidade e a força dos impulsos: quanto mais grossa a camada isolante, melhor e mais rápido os dados são transmitidos. Mas o que isso tem a ver com aprender? O aprendizado, antes de mais nada, baseia-se em uma alteração de comunicação entre as células do cérebro. Assim, é bastante plausível que a substância branca também se modifique quando aprendemos uma nova habilidade motora (como no caso do malabarismo), pelo surgimento de novos axônios ou com uma mielinização mais intensa daqueles já existentes. Dessa forma, os sinais de áreas visuais teriam condição de atingir as regiões cerebrais motoras com mais rapidez, por exemplo. Por isso, dançar, nadar, treinar lutas marciais, jogar tênis ou xadrez, praticar arvorismo ou qualquer outra atividade que mantenha o corpo e a mente em movimento favorece a capacidade neural. Para saber mais sobre aprendizagem e cognição leia o especial Mente e Cérebro 26 O desafio de aprender – Ajude seu cérebro a compreender e reter informações. Já nas bancas. FONTE DE PESQUISA: | ||||||
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